A batalha pelo espólio de Raul Seixas

 

A viúva do músico, Kika, move um processo contra as três filhas do músico, inclusive a sua filha

Quando morreu, em 1989, Raul Seixas deixou uma coleção de 400 canções de sua autoria, dezenas de grandes sucessos (“Gita” e “Ouro de tolo”, entre outras) e um problema: a batalha pelo direito de sua herança e pelo controle de sua obra. Por direito, as únicas herdeiras são suas três filhas. Na semana passada, uma das cinco viúvas de Raul, Angela Maria de Affonso Costa, a Kika Seixas, conseguiu fazer avançar um processo contra as três herdeiras, inclusive sua filha Vivian, hoje com 28 anos. Raul não tinha nenhum bem quando morreu (vivia de aluguel e nem carro tinha), mas Kika reivindica a condição de “meeira dos bens imateriais por ele deixados, como previsto em lei”. Em outras palavras, quer 50% sobre tudo o que a obra arrecada, sem contar os 16% da parte de Vivian – que foi citada no processo com seu consentimento.

“Tudo que minha mãe quer (e eu concordo plenamente) é ser reconhecida e ressarcida pelos trabalhos feitos ao longo dos últimos 20 anos”, disse Vivian em e-mail a ÉPOCA. Ela afirma que sua mãe “tem divulgado a obra de Raul, realizando shows, lançando CDs e DVDs, livros, documentário, apoiando fã-clubes, abrindo processos vitoriosos contra gravadoras e editoras desde 1989”.

O processo foi aberto por Kika em 2002, mas só agora a Justiça conseguiu notificar as duas primeiras filhas de Raul, Simone Andrea O’Donoghue (com Edith Wisner) e Scarlet Vaquer Seixas (com Gloria Vaquer). Nascidas no Brasil, ambas moram desde pequenas nos Estados Unidos – provável motivo da demora na citação.


O processo, a que ÉPOCA teve acesso, corre em segredo de justiça. Por isso, os advogados de Simone e Scarlet não quiseram se manifestar. “Minha cliente vai contestar o pedido na próxima semana e confia em sua improcedência”, disse Renato Pacca, advogado de Scarlet.

Somente Vivian Seixas, única filha residente no Brasil, comentou o processo aberto pela mãe: “Minhas duas irmãs, Simone e Scarlet, são americanas, moram nos EUA desde criancinhas, não falam português, não conhecem nada do Brasil e não têm noção do trabalho que dá administrar a obra de um artista. Nos últimos anos Kika tem sido acusada de inúmeras atitudes que não correspondem à realidade, o que tem dificultado o bom andamento do trabalho que ela e agora eu fazemos para que a obra do meu pai não caia nem na vulgaridade comercial nem no esquecimento. Para ela se defender de tais acusações e dar legitimidade jurídica ao pleito, a solução foi abrir um processo para regularizar as situações de fato”. A reportagem tentou entrar em contato com Kika, sem sucesso. Vivian disse que sua mãe não iria se pronunciar.

Kika viveu com Raul de 1979 a 1984, sem formalizar a união. Nesse período, o casal compôs 13 canções em parceria. Desde a morte do músico, Kika tomou a frente de todos os lançamentos em torno de Raul e vetou alguns trabalhos. O jornalista Edmundo Leite, que desde 2004 trabalha em uma biografia de Raul, já recebeu dois telegramas de Kika ameaçando processá-lo caso publique o livro (para o qual havia concedido entrevista). O documentário O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel, previsto para estrear neste ano, teve orçamento de R$ 2,5 milhões. Kika, que assumiu a produção inicialmente, teve de renegociar o contrato com as herdeiras. Enquanto isso, Vivian, que é DJ, vai lançar um remix com as canções do pai.

Caso Kika ganhe a ação, estima-se que poderá receber cerca de R$ 1 milhão em direitos autorais acumulados desde 1989, fora as arrecadações, que poderão chegar a R$ 45 mil por trimestre.

  • Livia Deodato, para a Época
 
 
 

1 Comentários

  1. Zé Juninho disse:

    Pq será q Kika quer proibir a publicação da biografia?

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